quinta-feira, 18 de junho de 2015

Arena

Entrelaçou os dedos mas logo soltou-os... Observo atentamente cada movimento.
O olhar era meio pensativo e a boca semiaberta como se estivesse a beber do sol.
Sorriu, e eu retribuí, meio reticente, sem estar certa se sorria, de facto, para mim.
Não me fitava, olhava disfarçadamente o céu…
 “E então? Que achaste?” Pergunta.
Encolho os ombros, como se a dizer: é-me indiferente.
Encara-me repentinamente, desvio o olhar e tiro-lhe o lugar…
“Depois eu é que não te encaro” diz ele, num tom acusativo.
Mas é assim, difícil de explicar, esse tipo de comunicação... Esta linguagem informal com todas as suas formalidades nas entrelinhas… esse texto poético que se traduz num olhar tão apaixonado e ofegante a sussurrar intenções que chegam a ser chocantes, amavelmente insultantes…
Podia ficar ali a tarde toda, a ler-lhe o olhar naquela praia. Em conflito entre o não querer e o querer perceber…Lutando contra algo que para mim era nocivo ou talvez apenas desconhecido.
Aperta-me os ombros e solta-os como se a dizer, relaxe…
Sinto-me a relaxar num descair dos ombros e por breves instantes abaixei a guarda… foi o suficiente para levar a golpada.
 “Sinto que me amas”, afirma, assim do nada.
 Palavras tão brutais ao ponto de me ter posto em estado de embaraço, mas o lance já tinha sido feito e quando me dei conta, já estava corada, traída que fora pelas próprias emoções.
 Deixei-me cair… Rendida na arena. E a plateia gritava….
“Penso que sim, ou talvez... Talvez, até podia…”Respondo, “Não sei bem. Também tu nunca tens a certeza das coisas…”
Ele, de sorriso invicto, abana a cabeça. Aproveitei esse instante e percorri a minha mente à procura da algo que se parecesse com pudor, racionalidade, funcionalidade, sei lá, algo que me servisse de armadura.
“Não tenho certeza, pois não!” Respondeu-me. “E quem tem?” Abaixa-se à minha altura e olha-me directamente nos olhos.“ Tu tens…?”
Opto, no entanto, para olhar para o chão, num tentativa desesperada de me defender do previsível. Mas o percurso é interrompido pela mão dele que se instala carinhosamente abaixo do meu queixo. E o meu olhar é subitamente interrompido. A plateia se põe em pé antecipando o grande momento, e me sinto a deambular pela arena quando o golpe final é desferido, num beijo que, deste modo, me fez sucumbir. E assim terei perdido a batalha, perdendo-me a mim mesmo, sendo certo que tudo o que havia engendrado minha alma, de forma induzida, acabava de se transformar no húmus da minha própria destruição… Algo nasceria daí para me consumir em derradeiro mais tarde…
Em delírio, caí de costas e vi o céu rodopiar, enquanto o veneno me percorria o corpo. Fiquei a olhar, paralisada, enquanto ele se afastava e me deixava ali prostrada. Abandonada. Olhou para trás uma última vez e sorriu, não antes de abrir as grades e soltar as feras que haviam de se ocupar dos restos que teriam sobrado de mim…

Sem comentários:

Enviar um comentário