terça-feira, 27 de outubro de 2015

A filha do meio

Sim, sou filha do meio. Mas não sou meia pessoa, nem meia irmã, nem meio ser humano. Não sofro por meio, nem tenho meio sentimentos, nem nasci no meio de alguém. Nasci sozinha, na minha hora, o em meia hora! 
Sim, sou filha do meio. Mas não tenho menos dor, nem meia razão. Tenho a MINHA razão, minha correlação, tenho coração, e ele também não é meio, é inteiro!  
Por isso, quando me amares, não me ames por metade, e quando estou certa, o me dês só meia razão... não me procures entre meios nem nos recreios que os teus outros filhos te dão. Dá-me o que é devidamente meu, não por metades mas inteiro! Porque sou sim, filha do meio, mas nunca deixei de ser inteira! 
A verdade é que, não sou meio nada, não nasci no intervalo das tuas "grandes criações"... Não sou ENSAIO.

Sou tempestiva e emocional, choro de verdade, não tenho pilhas, não me podes desligar. Sou inteira sim, e se me procurares, não encontrarás só metade, porque sou inteira já te disse, não sou meio humano por ser filha do meio!
Talvez por isso, sinto-me mais forte. Roubada de um titulo, mas não de personalidade! Sem a atenção de um primogênito, nem sobre protegida por ser caçula, investi em mim mesmo e não me desiludi! Mas porra, não sou metade! Sou a filha do meio, ouviste??  Sou inteira!

domingo, 6 de setembro de 2015

ÉS! - para os entes que nos deixaram mas nunca partiram...

Há coisas na vida que simplesmente… são. Coisas que não podemos mudar, que existem antes de nós e continuarão depois de partirmos. Como a noite que escurece, ou o nascer do sol que insiste em brilhar mesmo nos nossos momentos de maior escuridão. A saudade, essa é também insistente. Parece uma criança que nos puxa o braço insistentemente apesar de atentarmos ignorar… enquanto não lhe encararmos, não se vai embora. Passo a mão na saudade, faço reconhecer a sua presença e ela que outrora parecera minha inimiga, me abraça em solidariedade. E ali, num embalar, me consolo nas lembranças e sou recompensada com o retorno de sentimentos que antes eu tinha perdido no abismo. E me vejo a rodopiar, entre lembranças e sentimentos, entre alegria e tristeza, e mergulho nas lágrimas para me afogar e morrer de angústia, mas as mãos que me socorrem são as mãos da esperança. A esperança de um dia voltar a te encontrar… mas o legado, o amor que geraste enquanto viva, essa corre em mim como corrente de electricidade e me mantém DESPERTA. Inabalável, inexplicável… Porque há coisas da vida assim, coisas que simplesmente… SÃO.  E tu não eras, ÉS, e serás sempre, uma delas…

-Dedicado a Minha avó, Alice Lopes, que partiu muito cedo.

sábado, 22 de agosto de 2015

A Cola



Era meio torto, meio perfeito...

Brilhei de orgulho da minha "obra de Arte" que, embora pouco original, acusava diferença pela assimetria ganho pelo meu jeito desastrado. Pintei-o de azul, mas não de qualquer azul. Do Azul de orgulho, de força, de virilidade...do azul de super homem...

O sino tocou e fui a primeira a sair  da sala de artes manuais. Queria voar para casa e te entregar a prenda que tinha feito para o dia dos pais.
Já á porta, corri pelas escadas acima com tanto furor que acabei por tropeçar e, para o meu horror, vi a minha "obra" voar , rodopiar e colidir com o degrau das escadas antes de partir em vários pedaços. Não pude crer...estava ali, aos pedaços a rolar pelas escadas abaixo.
 Foste tu que abriste a porta naquele dia. Entrei de olhos vermelhos e corri para o quarto com a estatueta partida escondida entre a minha mochila e o meu peito.

"Então, entras assim? O que se passou?" Perguntaste, indignado.
"Nada" retruquei irritada enquanto tentava sem sucesso recolher as lágrimas antes que escorressem pela face e fossem vistas.
Voltaste a perguntar , já impaciente...
"Nada!!" ecoei
Contrariado, voltaste as costas e foste embora.

Ouvi-te  sussurrar e resmungar, e fiquei ali sentada ainda com os restos do barro entre o peito e a mochila. Solucei, que trapalhona...
Não demorou para voltares. Mas também não me surpreendeu. Só quem não te conhece é estranho á tua essência teimosa e determinada.
Entraste e sentaste ao meu lado sem dizer uma ÚNICA palavra, abrindo a mão para revelar um tubo de cola. Sem pedir permissão, começaste a retirar partes da estatueta partida e a colá-los com tanta precisão, que, por instantes, fiquei em duvida sob o autor da peça...
Foram praticamente 15 minutos de silêncio consagrado enquanto  unias as peças, completamente concentrado e determinado a ressuscitar uma obra assassinada.  E eu ali, a naufragar, meia desajeitada a contar os dedos das mãos como se já não soubesse que haviam dez.
O meu pensamento foi interrompido pelo teu suspiro de satisfação e ergui a face para ser recebida por um olhar cheio de brilho e orgulho.
E a estatueta? Intacta. Nem se via a cola...
"Obrigada" disseste, antes de beijares-me a testa e de te retirares.Na tua mão ia também a minha obra. E eu segui-te até á sala, curiosa.
Vi-te  esticar e pousar a estatueta na mais alta prateleira da sala, onde antes apenas ocupava a moldura com a foto da tua querida mãe. E meu peito encheu-se de orgulho. Nesse momento senti-me invencível, imbatível e soube que jamais poderia ser uma mulher vencida porque a tua determinação corria também nas minhas veias.
 E pela vida fora o ciclo se repetiu: cai e vi-me estilhaçar milhares de vezes mas tu, sempre inexaurível, batias á minha porta com uma atitude de "cola-tudo" empenhado em ressuscitar a tua "obra", nunca permitindo que a fé se desvanecesse de mim. Contigo aprendi a construir um império interno impenetrável, imortal, que embora muitas vezes partes dos sonhos que lhe ergue se corroem com o apedrejar de um mundo em guerra, se reconstruirá cada vez com mais força. Porque me ensinaste que apenas perdemos sonhos quando elas se transformam em realidade...
E por essas e tantas outras lições vividas ao teu lado, venho por esta "obra" te relembrar que, se algum dia também de estilhaçares, não tens de te preocupar... aquela menina desajeitada, de 10 aninhos, que te ofereceu uma estatueta partida no dia dos pais, quis que eu te dissesse que ela guardou a cola...

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Sonhos

Às vezes encontro-me assim, num lugar desconhecido, estranhamente iludida, perdida dentro do meu próprio habitat. O que sempre conheci mas nunca me fitou, finalmente virou a cara e apercebi-me que afinal o que me parecia familiar era a cara da revelação!  
São sonhos, disseram-me. Estes lugares cujas portas se abrem e quando entras, cais dentro dum nada… Sabes? Aquelas portas que fecham quando deviam abrir e abrem quando lhes fechas… portas com indicação de lugares que não existem. Escondidas em mapas de escrituras duvidáveis…  
São sonhos, não entres em pânico, apenas sonhos… e quando vais acordar então???
Passas a vida a correr, a lutar e afinal ainda nem te levantaste da cama. Ironia… Dá uma súbita vontade de rir e perguntar: que circo é este??  Não sei, mas consola-te, pelo menos o tolo no palco não és tu… Tens um lugar reservado na bancada para também assistir á actuação. Bem lá em cima, quase que longe demais mas o suficientemente perto para perceberes que afinal a verdade não é o que se esconde atrás da mascara do palhaço, mas sim, aquela se se expõe em tela no quadro que pintaste para ti! Manchou um pouco, eu sei… são coisas que as lágrimas fazem, mas o espirito da obra ainda está ali, completamente intacta! Essa não se desmancha tão facilmente…
Insensato! Gritaste. Porque me deixei sofrer? Bobo…
E ouviste: SÃO SONHOS! E assim continuavam repetidamente…
Até porque, quem disse que Sofrer é dor?  Pois, é claro, a verdade tatuada na alma dói mais do que na pele.. Mas não te armes em vítima. Porque sofrer, toda gente quer sofrer, Ser mártir. Querem incorporar o sacrificado porque sabem que sacrifícios lavam a alma….  mas apontando o dedo para quem mal nos fez, não nos faz bons…
Eu prefiro me perder no nada ou até mesmo continuar a dormir do que ser vítima de alguém! Porque, mesmo que inconscientemente, a vida só nos bate se não levantarmos o braço para nos defender dela!
Acreditem que, se abrirem a porta, obviamente vão entrar. E Obviamente  tudo vão vos levar! Menos a essencia. O que quer dizer que no fundo, nada de valor levaram…  
Não caias na canção do engodo…essa de te deitar no chão e queixar ser pisado!  
Porque quando deres conta, estarás sozinho. E a tua volta, pó. Apenas pó.
Um sonho… enfim, acho que hoje foi o dia que me despertei.
Só hoje?? Pergunta o espertalhão...
Ora, ora… esses sonhos são mesmo assim! Sonhos para serem vivamente sonhados na claridade!Sonhos que fazem historia! Sonhos que constroem templos que serão pilares quando te sentires a desmoronar. Nunca ouviste dizer que a vida é feita de sonhos? Pois, Ela é literalmente um SONHO.
E sabes quando vai tocar o teu despertador? Quando ACORDARES! Mas as horas marcadas não te cabem a ti. Só quando a Ele lhe apetecer…só mesmo quando lhe apetecer…

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Arena

Entrelaçou os dedos mas logo soltou-os... Observo atentamente cada movimento.
O olhar era meio pensativo e a boca semiaberta como se estivesse a beber do sol.
Sorriu, e eu retribuí, meio reticente, sem estar certa se sorria, de facto, para mim.
Não me fitava, olhava disfarçadamente o céu…
 “E então? Que achaste?” Pergunta.
Encolho os ombros, como se a dizer: é-me indiferente.
Encara-me repentinamente, desvio o olhar e tiro-lhe o lugar…
“Depois eu é que não te encaro” diz ele, num tom acusativo.
Mas é assim, difícil de explicar, esse tipo de comunicação... Esta linguagem informal com todas as suas formalidades nas entrelinhas… esse texto poético que se traduz num olhar tão apaixonado e ofegante a sussurrar intenções que chegam a ser chocantes, amavelmente insultantes…
Podia ficar ali a tarde toda, a ler-lhe o olhar naquela praia. Em conflito entre o não querer e o querer perceber…Lutando contra algo que para mim era nocivo ou talvez apenas desconhecido.
Aperta-me os ombros e solta-os como se a dizer, relaxe…
Sinto-me a relaxar num descair dos ombros e por breves instantes abaixei a guarda… foi o suficiente para levar a golpada.
 “Sinto que me amas”, afirma, assim do nada.
 Palavras tão brutais ao ponto de me ter posto em estado de embaraço, mas o lance já tinha sido feito e quando me dei conta, já estava corada, traída que fora pelas próprias emoções.
 Deixei-me cair… Rendida na arena. E a plateia gritava….
“Penso que sim, ou talvez... Talvez, até podia…”Respondo, “Não sei bem. Também tu nunca tens a certeza das coisas…”
Ele, de sorriso invicto, abana a cabeça. Aproveitei esse instante e percorri a minha mente à procura da algo que se parecesse com pudor, racionalidade, funcionalidade, sei lá, algo que me servisse de armadura.
“Não tenho certeza, pois não!” Respondeu-me. “E quem tem?” Abaixa-se à minha altura e olha-me directamente nos olhos.“ Tu tens…?”
Opto, no entanto, para olhar para o chão, num tentativa desesperada de me defender do previsível. Mas o percurso é interrompido pela mão dele que se instala carinhosamente abaixo do meu queixo. E o meu olhar é subitamente interrompido. A plateia se põe em pé antecipando o grande momento, e me sinto a deambular pela arena quando o golpe final é desferido, num beijo que, deste modo, me fez sucumbir. E assim terei perdido a batalha, perdendo-me a mim mesmo, sendo certo que tudo o que havia engendrado minha alma, de forma induzida, acabava de se transformar no húmus da minha própria destruição… Algo nasceria daí para me consumir em derradeiro mais tarde…
Em delírio, caí de costas e vi o céu rodopiar, enquanto o veneno me percorria o corpo. Fiquei a olhar, paralisada, enquanto ele se afastava e me deixava ali prostrada. Abandonada. Olhou para trás uma última vez e sorriu, não antes de abrir as grades e soltar as feras que haviam de se ocupar dos restos que teriam sobrado de mim…