Já á porta, corri pelas escadas acima com tanto furor que acabei por tropeçar e, para o meu horror, vi a minha "obra" voar , rodopiar e colidir com o degrau das escadas antes de partir em vários pedaços. Não pude crer...estava ali, aos pedaços a rolar pelas escadas abaixo.
Foste tu que abriste a porta naquele dia. Entrei de olhos vermelhos e corri para o quarto com a estatueta partida escondida entre a minha mochila e o meu peito.
"Então, entras assim? O que se passou?" Perguntaste, indignado.
"Nada" retruquei irritada enquanto tentava sem sucesso recolher as lágrimas antes que escorressem pela face e fossem vistas.
Voltaste a perguntar , já impaciente...
"Nada!!" ecoei
Contrariado, voltaste as costas e foste embora.
Ouvi-te sussurrar e resmungar, e fiquei ali sentada ainda com os restos do barro entre o peito e a mochila. Solucei, que trapalhona...
Não demorou para voltares. Mas também não me surpreendeu. Só quem não te conhece é estranho á tua essência teimosa e determinada.
Entraste e sentaste ao meu lado sem dizer uma ÚNICA palavra, abrindo a mão para revelar um tubo de cola. Sem pedir permissão, começaste a retirar partes da estatueta partida e a colá-los com tanta precisão, que, por instantes, fiquei em duvida sob o autor da peça...
Foram praticamente 15 minutos de silêncio consagrado enquanto unias as peças, completamente concentrado e determinado a ressuscitar uma obra assassinada. E eu ali, a naufragar, meia desajeitada a contar os dedos das mãos como se já não soubesse que haviam dez.
O meu pensamento foi interrompido pelo teu suspiro de satisfação e ergui a face para ser recebida por um olhar cheio de brilho e orgulho.
E a estatueta? Intacta. Nem se via a cola...
"Obrigada" disseste, antes de beijares-me a testa e de te retirares.Na tua mão ia também a minha obra. E eu segui-te até á sala, curiosa.
Vi-te esticar e pousar a estatueta na mais alta prateleira da sala, onde antes apenas ocupava a moldura com a foto da tua querida mãe. E meu peito encheu-se de orgulho. Nesse momento senti-me invencível, imbatível e soube que jamais poderia ser uma mulher vencida porque a tua determinação corria também nas minhas veias.
E pela vida fora o ciclo se repetiu: cai e vi-me estilhaçar milhares de vezes mas tu, sempre inexaurível, batias á minha porta com uma atitude de "cola-tudo" empenhado em ressuscitar a tua "obra", nunca permitindo que a fé se desvanecesse de mim. Contigo aprendi a construir um império interno impenetrável, imortal, que embora muitas vezes partes dos sonhos que lhe ergue se corroem com o apedrejar de um mundo em guerra, se reconstruirá cada vez com mais força. Porque me ensinaste que apenas perdemos sonhos quando elas se transformam em realidade...
E por essas e tantas outras lições vividas ao teu lado, venho por esta "obra" te relembrar que, se algum dia também de estilhaçares, não tens de te preocupar... aquela menina desajeitada, de 10 aninhos, que te ofereceu uma estatueta partida no dia dos pais, quis que eu te dissesse que ela guardou a cola...