sexta-feira, 19 de junho de 2015

Sonhos

Às vezes encontro-me assim, num lugar desconhecido, estranhamente iludida, perdida dentro do meu próprio habitat. O que sempre conheci mas nunca me fitou, finalmente virou a cara e apercebi-me que afinal o que me parecia familiar era a cara da revelação!  
São sonhos, disseram-me. Estes lugares cujas portas se abrem e quando entras, cais dentro dum nada… Sabes? Aquelas portas que fecham quando deviam abrir e abrem quando lhes fechas… portas com indicação de lugares que não existem. Escondidas em mapas de escrituras duvidáveis…  
São sonhos, não entres em pânico, apenas sonhos… e quando vais acordar então???
Passas a vida a correr, a lutar e afinal ainda nem te levantaste da cama. Ironia… Dá uma súbita vontade de rir e perguntar: que circo é este??  Não sei, mas consola-te, pelo menos o tolo no palco não és tu… Tens um lugar reservado na bancada para também assistir á actuação. Bem lá em cima, quase que longe demais mas o suficientemente perto para perceberes que afinal a verdade não é o que se esconde atrás da mascara do palhaço, mas sim, aquela se se expõe em tela no quadro que pintaste para ti! Manchou um pouco, eu sei… são coisas que as lágrimas fazem, mas o espirito da obra ainda está ali, completamente intacta! Essa não se desmancha tão facilmente…
Insensato! Gritaste. Porque me deixei sofrer? Bobo…
E ouviste: SÃO SONHOS! E assim continuavam repetidamente…
Até porque, quem disse que Sofrer é dor?  Pois, é claro, a verdade tatuada na alma dói mais do que na pele.. Mas não te armes em vítima. Porque sofrer, toda gente quer sofrer, Ser mártir. Querem incorporar o sacrificado porque sabem que sacrifícios lavam a alma….  mas apontando o dedo para quem mal nos fez, não nos faz bons…
Eu prefiro me perder no nada ou até mesmo continuar a dormir do que ser vítima de alguém! Porque, mesmo que inconscientemente, a vida só nos bate se não levantarmos o braço para nos defender dela!
Acreditem que, se abrirem a porta, obviamente vão entrar. E Obviamente  tudo vão vos levar! Menos a essencia. O que quer dizer que no fundo, nada de valor levaram…  
Não caias na canção do engodo…essa de te deitar no chão e queixar ser pisado!  
Porque quando deres conta, estarás sozinho. E a tua volta, pó. Apenas pó.
Um sonho… enfim, acho que hoje foi o dia que me despertei.
Só hoje?? Pergunta o espertalhão...
Ora, ora… esses sonhos são mesmo assim! Sonhos para serem vivamente sonhados na claridade!Sonhos que fazem historia! Sonhos que constroem templos que serão pilares quando te sentires a desmoronar. Nunca ouviste dizer que a vida é feita de sonhos? Pois, Ela é literalmente um SONHO.
E sabes quando vai tocar o teu despertador? Quando ACORDARES! Mas as horas marcadas não te cabem a ti. Só quando a Ele lhe apetecer…só mesmo quando lhe apetecer…

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Arena

Entrelaçou os dedos mas logo soltou-os... Observo atentamente cada movimento.
O olhar era meio pensativo e a boca semiaberta como se estivesse a beber do sol.
Sorriu, e eu retribuí, meio reticente, sem estar certa se sorria, de facto, para mim.
Não me fitava, olhava disfarçadamente o céu…
 “E então? Que achaste?” Pergunta.
Encolho os ombros, como se a dizer: é-me indiferente.
Encara-me repentinamente, desvio o olhar e tiro-lhe o lugar…
“Depois eu é que não te encaro” diz ele, num tom acusativo.
Mas é assim, difícil de explicar, esse tipo de comunicação... Esta linguagem informal com todas as suas formalidades nas entrelinhas… esse texto poético que se traduz num olhar tão apaixonado e ofegante a sussurrar intenções que chegam a ser chocantes, amavelmente insultantes…
Podia ficar ali a tarde toda, a ler-lhe o olhar naquela praia. Em conflito entre o não querer e o querer perceber…Lutando contra algo que para mim era nocivo ou talvez apenas desconhecido.
Aperta-me os ombros e solta-os como se a dizer, relaxe…
Sinto-me a relaxar num descair dos ombros e por breves instantes abaixei a guarda… foi o suficiente para levar a golpada.
 “Sinto que me amas”, afirma, assim do nada.
 Palavras tão brutais ao ponto de me ter posto em estado de embaraço, mas o lance já tinha sido feito e quando me dei conta, já estava corada, traída que fora pelas próprias emoções.
 Deixei-me cair… Rendida na arena. E a plateia gritava….
“Penso que sim, ou talvez... Talvez, até podia…”Respondo, “Não sei bem. Também tu nunca tens a certeza das coisas…”
Ele, de sorriso invicto, abana a cabeça. Aproveitei esse instante e percorri a minha mente à procura da algo que se parecesse com pudor, racionalidade, funcionalidade, sei lá, algo que me servisse de armadura.
“Não tenho certeza, pois não!” Respondeu-me. “E quem tem?” Abaixa-se à minha altura e olha-me directamente nos olhos.“ Tu tens…?”
Opto, no entanto, para olhar para o chão, num tentativa desesperada de me defender do previsível. Mas o percurso é interrompido pela mão dele que se instala carinhosamente abaixo do meu queixo. E o meu olhar é subitamente interrompido. A plateia se põe em pé antecipando o grande momento, e me sinto a deambular pela arena quando o golpe final é desferido, num beijo que, deste modo, me fez sucumbir. E assim terei perdido a batalha, perdendo-me a mim mesmo, sendo certo que tudo o que havia engendrado minha alma, de forma induzida, acabava de se transformar no húmus da minha própria destruição… Algo nasceria daí para me consumir em derradeiro mais tarde…
Em delírio, caí de costas e vi o céu rodopiar, enquanto o veneno me percorria o corpo. Fiquei a olhar, paralisada, enquanto ele se afastava e me deixava ali prostrada. Abandonada. Olhou para trás uma última vez e sorriu, não antes de abrir as grades e soltar as feras que haviam de se ocupar dos restos que teriam sobrado de mim…